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[Anibal Vieira]

Aníbal Vieira

Aníbal Vieira
Sua vida, curta e trágica, é tema central do romance de Mário Palmério “Chapadão do Bugre” (1965), consagrado, uma obra prima da literatura brasileira.
O livro foi adaptado e dirigido por Walter Avancini e foi ao ar pela Rede Bandeirantes (1988), protagonizado por Edson Celulari no papel de José de Arimatéia (Aníbal Vieira).
Uma história forte, baseada na real, ocorrida em Passos/MG, na primeira metade do século vinte, envolta em mistério e que virou lenda.
O Chapadão do Bugre (1965) foi o segundo livro escrito por Mario Palmério, mineiro de Monte Carmelo, superando seu 1º livro “Vila dos Confins” (1956), um best-seller.
“O Chapadão do Bugre” deu ao autor a consagração da Academia Brasileira de Letras, em 1968, da qual recebeu o título de “imortal”. Considerado um épico, mostra o quadro social, político e econômico do Brasil, na época, com brilhantismo, fidelidade histórica e riqueza de detalhes.
Uma história que envolve latifúndio, coronelismo, crueldade, violência e tragédia.
Para os homens do povo espalhados pelo sertão do Brasil e que na época eram 70% da população do país, a miséria, a exclusão e o abandono do poder público, assim como para José de Arimatéia.

Versão da Família
Eu, muito antes de conhecer o livro, tinha já algumas informações sobre essa história que chamarei de versão, ou versões, da família, já que essa mudava constantemente, incompleta, não seqüencial e não conclusiva. Vieram de meu avô paterno, José Luciano Vieira, natural de Passos/MG, onde vivera e criara família. Era tio de Aníbal Vieira. Deixara Passos no início do século XX, com mulher e 10 filhos e iniciara uma trajetória por seis ou sete cidades e que terminaria em Itararé/SP,em fevereiro de 1932.
Quando perguntavam ao meu avô o motivo da mudança, ele respondia: “Saí de Passos porque lá estava havendo uma grande matança na família e eu receei que um dos meus filhos viesse a se tornar vítima”.
Soube também que teria sido um crime passional o começo da matança, como no livro.
Soube que Aníbal fazia curso de dentista prático (pretendia ser dentista itinerante) em Ribeirão Preto quando seus pais foram assassinados e sua irmã seviciada e morta no pequeno sítio de sua propriedade nos arredores de Passos. O sítio passaria a integrar o latifúndio de um poderoso fazendeiro, cujos jagunços teriam executado a chacina.
Nessa época de estudante, um jovem de Itararé, o conhecera e fora seu colega de escola. O jovem de Itararé era primo de minha mãe.
Aníbal deixou os estudos e começou a pensar em vingança. Queria fazer justiça pelas próprias mãos e vingar também outros que como ele tinham sede de justiça, respeito, verdade. Chegou a formar um grupo para enfrentar o poder. Acabou sozinho, caçado como marginal e sua vida tomou rumos piores. Vivia escondido e sem lugar certo. Não tinha família, amigos, nem emprego. Os que se aproximavam dele também passavam a ser perseguidos pelos jagunços e pela milícia.
Por volta de 1940 meu avô recebeu noticias de Aníbal por um enviado seu, dito “mineirinho”, que por aqui passou de volta de uma viagem ao vizinho Paraná.
Aníbal, dentista itinerante tornara-se um fugitivo. O cerco a ele estava fechando, até que um velho amigo seu não suportando mais a pressão da polícia e dos coronéis em questão, entregou-o.
A tocaia surpreendeu-o a caminho da casa desse amigo. Aníbal foi morto metralhado pelos homens do destacamento policial.
O passado não revelado em palavras, adivinhou-se nos hábitos e costumes do meu avô que vivia em nossa casa desde o casamento do meu pai em 1936.
Era um homem atento ao primeiro sinal de perigo e à possibilidade de ser surpreendido. Vivia em alerta e administrava tudo o que se passava à sua volta. De manhã, mal saía do quarto, já estava vestido com seu terno de brim claro, botinas, revólver e faca no cinturão. O chapéu, complemento dessa produção, em casa e na rua, só era tirado da cabeça para ser substituído por um lenço, na procissão do Senhor Morto, na Semana Santa, único ato religioso que ele acompanhava.
Tinha um bom porte, era ainda um homem forte. Rachava lenha duas vezes por mês para “tirar o suor ruim do corpo”. A pele, queimada do sol do sertão por onde andara conduzindo tropas de animais a vida toda. Os cuidados, pela vida cheia de perigos e desafios que vivera. Ao entardecer, cumpria, todos os dias o mesmo ritual. Recolhia todas as ferramentas espalhadas pelo terreiro, especialmente o machado (que no livro de Palmério é a arma do crime) que conforme o costume daqui era fincado num toco de árvore abatida, no quintal das casas. Em seguida, fechava portas e janelas, vasculhava os cantos, dentro dos armários e debaixo das camas, cutucando-os com sua bengala. Eu o acompanhava. Ele não fazia comentários, mas me convidava sempre a partilhar da inspeção com ele. Criança não atendia porta, não dava informações, não falava com estranhos na porta da casa, não recebia doces e outros que tais, por sua própria conta.
Uma vez lhe perguntei porque se assinava Vieira, alguns filhos Mello Vieira, e outros, apenas Mello. Riu e disse que isso era bobagem, as famílias naquela época tinham dois ou três sobrenomes e escolhiam entre eles à vontade. Às vezes até trocavam de sobrenome quando iam mudando de cidade, adotando um outro de família já conhecida na nova moradia. O tom sempre brincalhão, a resposta ficava por isso mesmo. No entanto, sua presença intimidava. Embora ele fosse respeitoso e disposto ao diálogo, via-se logo que era um homem de atitude.
A saga de meu avô, descendo de Passos/MG para Santa Rita de Cássia/MG onde nasceria meu pai, seu décimo primeiro filho, em seguida para Sertãozinho/SP, onde nasceria uma menina, sua última e décima segunda filha. Dali para Franca/SP, depois para uma chácara nas proximidades de Ribeirão Preto e ainda Ribeirão Preto, Barretos, Santa Adélia e finalmente Itararé, todas em São Paulo.
Em Itararé chegou em 1932, viúvo, com os cinco filhos que ainda viviam com ele, todos solteiros. Os mais velhos foram casando e ficando em Sertãozinho, Olímpia, Araçatuba, no noroeste paulista, Goiana/GO.
Atravessara do sudoeste mineiro ao nordeste e noroeste e por último sudoeste paulista no chamado “Caminho do Sol”, feito pelos bandeirantes, partindo de Santana do Parnaíba para o Paraná, via Itararé, e daqui para o sul.
Era uma grande e intrigante aventura.
Nessas andanças quantas coisas seus olhos viram, de quantas razões se fortaleceu, quantas vezes teve que parar. Mas sempre buscou o lugar certo. Sempre acreditando na mudança.
Nessas andanças, na chácara onde vivera um tempo, morreu-lhe a mulher (nossa avó), ele ausente, no sertão, ela com os filhos crianças e adolescentes e a morte em três versões: gripe espanhola, queda de uma árvore onde fora colher folhas para um chá, à noitinha, ataque cardíaco. Viúvo, com 54 anos, oito filhos para acabar de criar, nunca mais se casou. Dali a família foi para Ribeirão Preto onde viveria alguns anos. De Ribeirão Preto para Barretos, quando na vizinha Olímpia um neto seu,(filho de América e Pedro Ricciardi),de nome Antônio (Lulu), de 20 anos foi assassinado em praça pública, de dia, por um soldado da polícia que se disse desacatado pelo jovem. E apesar da riqueza do pai, ninguém foi preso.
De Barretos, para Santa Adélia, Antonio, um de seus filhos que seguira para Rio Preto, onde trabalhava nos correios, foi assassinado pelas costas, ao entrar e fechar a porta do quarto da pensão onde morava.O tiro veio pela janela. Nunca se soube porque nem por quem.
De repente, uma oportunidade de mudança radical. De Santa Adélia para Itararé, por transferência e promoção no emprego. Um dos rapazes ganhara a gerência da Casa Pernambucanas.
Em 1936, há quatro anos em Itararé, meu pai casou-se com minha mãe, de família tradicional local. Teria também numerosa família (nove filhos) e permaneceria a vida toda em Itararé.
Eu só conheci e convivi com o grupo que veio para Itararé- 2 homens (um deles meu pai) e três mulheres. Também esses seus irmãos sairiam daqui ao longo de uma década para residir na capital paulista.
Um dos filhos de meu avô, de nome José, como ele, era o seu predileto. Homem de vida perigosa que participara do famoso episódio da entrada do temido Filogônio e seus homens em Barretos, morre em 1944 num hospital em São Paulo, de morte natural, apendicite. Em 1945 morre meu avô, em São Paulo, de morte natural, num curto prazo de dez dias de enfermidade, como pedia sempre ao seu santo protetor, São José, do qual tinha o nome.
Ele me parecia um herói. E era. Um sobrevivente da dura lei do sertão. Gostava de dizer que, de onde vinha, um homem tinha que ter um filho padre, um militar, um médico, um advogado e por último um meio rude no trato, pronto para enfrentamentos.
Mesmo ironizando, mostrava o quanto era desassistido dos governos, do poder público, o homem do interior do Brasil.
Meu pai teria sido o filho padre se a pneumonia dupla ao quatorze anos não interrompesse seus quase três anos de estudo no Seminário de São Bom Jesus de Pirapora. Homem urbano, intelectual, jornalista, orador, contador se tornaria ainda advogado. Era um “gentleman” no dizer de quantos o conheceram. Falava muito de futuro, mas de passado, pouco, suas recordações em geral referiam-se à sua juventude em Barretos. Lembranças felizes.
Além dos pais e irmãos, os únicos parentes a que se referiu meu pai em mais de seis décadas, foram – um tio de nome Severino, a prima Cavídia Souto Maior (parece-me de Ribeirão Preto) e Aníbal Vieira, primo.
Quando do lançamento da minissérie da Rede Bandeirantes em 1988, meu pai disse-nos “esse homem aí era o meu primo Aníbal Vieira”. Reconhecera em José de Arimateia e sua historia, a figura de Aníbal e sua saga. A presença de Aníbal em Itararé ficou registrada em uma foto de família, segundo consta.
Lembro-me ainda de quando menina novinha, vir mais de uma vez alguém “do mato” para consulta de questões comerciais à noite. Numa delas fui chamada por meu pai ao escritório. Ele na escrivaninha, de frente para mim e de costas, sentado também, um homem de chapéu e capa de vaqueiro. Quando se virou, era a cara de meu pai, fiquei com medo, eles riram e brincaram comigo, chocada com a semelhança de ambos. Não lhe soube o nome, o paradeiro, por mais que perguntasse e nunca mais o vi.

Comentário
Tudo isso já estava esquecido. Um histórico familiar cheio de lacunas, reticências, silêncio, e, no meio, uma chacina.
Sempre mais laços familiares se desatando, seja pelos conflitos ou pelas distâncias que as separações provocam.
Uma história dramática e misteriosa que Mario Palmério trouxe ao domínio público com muita paixão e compaixão, com muita arte e despertou o questionamento desse episódio que ficou mal resolvido na memória popular do Triângulo Mineiro e vizinhas cidades de São Paulo, tais como Barretos e Ribeirão Preto.
A imagem do “cavaleiro solitário” vagando pelo sertão, nos remete à imagem do “justiceiro”. O drama social incidindo no pessoal. “Um destino infeliz e sangrento do homem nas suas conquistas essenciais – a terra e o amor”. (citação contracapa do livro “O Chapadão do bugre”).

Maria de Lourdes Luciano Nonvieri
Itararé-SP, 8 de outubro de 2008.

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