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Homenagem
de FLV | Domingo, 14 de Outubro de 2007
O Mito Paulo Autran
A primeira vez que eu li Paulo Autran (porque assisti-lo em cena é lê-lo) no Teatro da USP, eu me disse: Meu Deus, esse cara não é esse cara! Como pode ser tanto?
Porque ele, o Paulo Autran, teatralizou a ópera no seu monólogo deguste. No cinema, na entrevista, na tevê, na novela sazonal, Paulo Autran era ele mesmo o palco-íris. Espetacularmente uno.
Porque Paulo Autran é um desses mitos que podemos tocar-ouvir-(e permanecer-continuar com ele; na cena-diálogo guardada na retina açodada, no andaime-estatura, no fulgor de sua pantomina-representatividade).
Depois que você vê/lê Paulo Autran no Palco, sincronia e sintonia tocada, você carrega o Olimpo dentro de si. Ele prende você pelo espetáculo de ser-se, num não-lugar onde se orquestra, sendo a questão, centro e eixo.
Paulo Autran coloca glória nos texto que exprime, no cenário que injeta, trazendo a coxia da alma avelã-persona pra ribalta de ascendência múltipla.
O melhor ator dessa terra brasilis desde que Cabral encenou a primeira missa seca para silvícolas ameríndios nus, entre degradados companheiros de viagens e sobreviventes de catarinetas náuticas que Pero Vaz Caminha envergonhou-se de querer assentar.
Paulo Autran, primeiro e único. Antes dele todos foram meros atores simplesmente. Depois dele, como diz a canção, nada será como antes. Eu o vi representar-viver e disse-me: não vou ao camarim cumprimentá-lo, pois não deve ter um camarim com o tamanho de seu talento.
Senti-me grão pequenino na estatura de seu potencial criativo-interpretativo em cena. Viajei. Lições. Ele é mesmo o próprio palco-ator, a essência disso.
Esses dias eu o vi no Jô Soares da TV Globo. Ele estava ali representando ele mesmo com maestria singular. E ainda permanecia em cena do ser de si. Exuberante persona. Magnífico. Fiquei sondando. (Deve ser um truque decorado dele) Teria uma caixa de pandora para cada gesto-movimento; cada olhar signo-ficante; cada postura estatual em feitio de falange grega? Indizível.
Os deuses no desespelho, repiram pelo silêncio-albatroz dele: aura, halo, hélices - nas omoplatas representando as ombreiras do longo tempo cuorando.
Quem viu Paulo Autran representar, pode voltar inteirinho para casa e dizer documental: EU VI O TEATRO VIVO. Eu vi a cena bípede, com jugular e tudo. Eu vi o ator-desempenho, tragédia, comédia, gran finale em nele mesmo.
Que não viu, rabo de bugio.
Saí do palco ambiente como se tivesse ido aos céus de muito antes de antigamente. Saí-me, sobrevivente do antes, honrado e dizendo que aquilo que eu lera/assistira, era arte puríssima e vivacidade fora do comum. O ator pluridimensional na sua estética-valia de caber-se inteiro e pleno no papel da personagem que se era não se sendo, ser de ser, além da só representação.
Paulo Autran desse ser um pouco Cacilda Becker, Tonia Carreiro, Anselmo Duarte, Yoaná Magalhães, Bertold Brecht, Pablo Neruda, Frederico Garcia Lorca, Raul Júlia, Marlon Brando, Caruso. Tudo isso que me pareceu suma soma obtusa até, já que não soube colocar a coisa no palco linear do dizível, o que ele era, foi e, claro, ainda que muitíssimo é, pra sorte nossa e dessa desvairada Augusta Sampa de 450 pedradas.
Vi-o - Vi-me. Fui, vi e me vivi. Isso que é Ator, prosopopéia, crusoé, fulgor, alegria e ápice. O resto é mero teatro de absurdos, marionetes-atores comuns. (Meu sonho impossível era vê-lo desdizer meu causos e acontecências da Estância Boêmia de Itararé, contos surreais, poemas-banzos, croniquetas rueiras, artigos radicas, opiniões brasileirinhas, críticas ao neoliberalismo globalizando violência e miséria, ensaios fora da linha usual.
Mas não sonho muito. Só divago. Não mereço o laboratório de me ser mesmo, ainda que a partir de continuar-me poeta em silêncio sem documento, na ilha da fantasia de uma expectativa.)
Paulo Autran é fera, ele mesmo uma itinerante ilha de edição. É assim que se diz agora? Paulo Autran é matéria-prima, engenho-combustão, estágio-estúdio, vertente e corpóreo, táctil. Tudo ali no seu self. Quem nasceu pra ter asas na imaginação-epiderme, deve ser entidade espiritual paredemeia com spot-ligth nos sentido literário que quiserem…
Eu que alumbrado li/vi Paulo Autran, nunca mais voltei a ser eu mesmo depois disso. Retornei pra casa e já não era um lar, pois tudo, para Paulo Autran é um não-lugar até que ele naturalmente encorpa o habitat e diz a que veio. E reinterpreta o vivenciar.
Devo ter sido um (neologismo ) surto-circuito. Capa e espada? Vermelho e Negro? Átomos e ossos dos ofícios. Ele é o show. Vê-lo/lê-lo, é vestir o quimono angelical de dirigir diadorins, e pedir a bença pro anjo da guarda da arte sideral, cósmica, que o fez genial, insubstituível, poderoso e matriz. Germinal.
Porque hoje é sábado de primavera de outubro de 2003, ainda lembro que vi-o no Jô Soares todo trancham com sua tez-pelica, seus óculos-cortinas (disfarce?), seu figurino de carregador de cenários íntimos, seu molde totalmente in natura, habitando-se.
Perto dele todos os artistas-lights sonham glórias vãs. Impoluto, polido, cândido como quartzo-róseo em algibeiras surradas de artes mambembes por atacado.
Tinha ainda o olhar vivido de arrancar as ripas das personagens todas que vivificou, e alimentou de seu presencial hedônico.
Há artistas que são todos os percursos, todas as canções, todos os livros, todas as personagens que soam, todas as árvores e vertentes. Quem pagar pra vê-lo deve ter também a sua parte receptiva pra sacar o pacote completo, pronto e saradinho da sensibilidade a toda prova, à flor da pele.
Vi-o e quase pedi a bença.
Bravo Paulo Autran!
Não qualquer dia que você vê um Deus. Ou tem a chance de aplaudi-lo como se estivesse numa outra dimensão criativa, a ponto de não sossegar o facho até escrever alguma coisa para e sobre ele.
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Silas Corrêa Leite – Poeta, Educador, Jornalista, pós-graduado em Educação (Mackenzie), Literatura (ESPM) e Comunicação (USP) – Autor de Trilhas & Iluminuras, Poemas, Editora Grafite-RS. Membro da UBE-União Brasileira de Escritores.
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor do e-book de sucesso (único no gênero) O RINOCERONTE DE CLARICE no site www.hotbook.com.br/int01scl,.htm
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