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de FLV | Quinta, 18 de Janeiro de 2007
FRAGMENTOS…
DE CARTA DE HILDA HILST PARA ANTONIO NAUD JÚNIOR
“Você me fala do teu poço, Naud, meu baiano bonito, o poço há de ser sempre, as vezes com água mais clarinha, outras vezes com lama, bosta etc. Todos nós que escrevemos somos, queiram os outros ou não, diferentes mesmo, não há jeito. Eu sei que nada tenho a ver com as bestas-feras que habitam o planeta, acho mesmo que somos totalmente diversos, o olho vê mais fundo, a comoção é intensa, maior, fulgurante, tudo nos toca nos comove, nos mata nos aterroriza, o planeta Terra é muito bonito mas ficará amerdalhado totalmente logo mais, tenho profundo desprezo pelos homens políticos de agora de sempre, são todos uns filhos da maior puta, e nós nas mãos deles, cago para todo o Sistema de bosta, pra tudo, não desejo coisas além da solidão muito grande, só aqueles que fazem parte da minha família, isto é os escritores, os de intensidade verdadeira, os que sofrem de piedade e compaixão, as vezes penso que não vou agüentar continuar a existir vendo tanta crueldade, tanto horror. Também meu poço existe, também não tenho nada a ver com cidades, as vezes vou para SP para lançar um livro, como você sabe, chego lá tomo mil porres, ninguém tem nada a dizer, é a mesma baboseira de todos. Naud, nós todos temos problemas, saiba viver com os seus, te foi dado essa coisa tão difícil que é o ato de escrever, o sentir agudo o talento, você é um escritor e pronto, arranje um trabalho de bosta qualquer, meio período, mude-se para um pequeno lugar, você não é casado, não tem filhos para sustentar, escolha o lugar onde quer morar, arranje umas colaborações em revistas jornais, escolha a tua própria vida, faça a sua própria vida… ”
(25 de dezembro de 1990)
DE TEXTO INÉDITO DE HILDA HILST ( decido por Antonio Naud Júnior )
“O grande escritor que foi John Cowper Powys (”In Defense of Sensuality”), homem extraordinário e cultíssimo teceu loas à masturbação, e ressaltava a importância da mesma como forma de dominar impulsos perigosos. Pensem na eficácia desse ato supimpa libertando instintos assassinos e sádicos. E hoje então, meu povo, diante da Aids que grassa como guanxuma grama capim, que maravilha seria! Atenção: exibicionistas não! O ato pode ser realizado entre castas paredes, ah! teu corpo nu entre castas paredes, invente, imagine por exemplo um tanque de nenúfares (procure no dicionário), ou um bidê coalhado de maçãs, branco e carmim, teu neurônio ativado relembrando coalhadas e beijos, benditos instantes entre o teu-eu e o teu-sim. Ah! a derme cravada de desejo! Ternas ou torpes associações, relembranças, tudo tudo menos isso de sair por aí esfolando boi vaca bode cachorro gato e depois criancinhas homens mulheres. Vamos a campanha da mão em concha!”
(”A Mão em Concha”, 1990)
fonte: Revista Cultura Uol
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