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Viva a Vida

de FLV | Sexta, 20 de Outubro de 2006

Por Airton Luiz Mendonça
(Artigo do jornal o Estado de São Paulo)

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se
alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília,
sem portas ou janelas, sem relógio… você começará a perder noção do
tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo
as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos,
ciclos de sono, fome, sede e pressão sangüínea.

Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento
dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos,
como o nascer e o pôr do sol. Compreendido este ponto, há outra coisa que
você tem que considerar: nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita
fazer duas vezes o mesmo trabalho.

Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia.
Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar
conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos
é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto,
quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos
recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente
mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai
simplesmente colocando suas reações no modo automático e “apagando” as
experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o
tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada
vez mais rapidamente. Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece
muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.

Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os
sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. Como acontece? Simples: o
cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos,
mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar
(ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de
repetir realmente a experiência). Em outras palavras, você não
vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos
segundos de troca de marcha, leitura de placa… São apagados de sua noção
de passagem do tempo…

Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a
experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se
repetir - as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de
televisão, reclamações… enfim… as experiências novas (aquelas que
fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça
ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.

Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de
novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.

Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a …
r-o-t-i-n-a. Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e
otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao
longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido
todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M ( Mude e
Marque). Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma
festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família
(sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar
quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e
cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de
aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o
dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de
momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso
ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua
turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos,
troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites
diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um
livro novo.

Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente.

Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos iferentes.

Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências
diferentes. Seja diferente. Se você tiver dinheiro, especialmente se já
estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras
cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste
pratos esquisitos… em outras palavras… V-I-V-A. Porque se você viver
intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a
sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas
diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e
muito mais v-i-v-o… do que a maioria dos livros da vida que existem por
aí. Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares
diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é? Boa sorte em suas
experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e
vida.

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