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Antes de tudo, o nada.

de FLV | Domingo, 17 de Setembro de 2006

O que é Deus para a ciência?

Numa ciência como a cosmologia, em que se fala sobre tudo o que existe, incluindo o começo do universo, questões que são tradicionais da metafísica ou da religião sempre aparecem. Na verdade, esta foi a razão pela qual durante muito tempo, ao longo do século 20, ela não foi entendida como ciência. Era um tema tratado meio à parte até mesmo pelos físicos. Eles achavam que o objeto da cosmologia - essa totalidade chamada universo - não tinha sentido, porque, ao observá-lo, só podíamos ver um pedaço dele e não sua totalidade. Mais tarde, ficou provado que é possível observar a expansão total do universo. Por isso, muitas pessoas acharam que a idéia do big bang responderia sobre quem é Deus, o que ele faz etc. Mas essa é uma questão de ideologia, para aqueles que tomam o conhecimento científico e o utilizam dentro de uma especificidade que os interessa. A ciência propriamente dita não pode entrar nesse campo. Eu não chegaria ao ponto de dizer, como arrogantemente diziam os mecanicistas do século 18, que Deus é uma hipótese desnecessária na ciência. Isso é uma tolice. Dependendo de como cada pessoa, ou cada cientista, interpreta o que significa Deus, ele pode encontrar na ciência algum ponto de contato com um certo movimento de idéias que ele possa ter a respeito desse Deus. Mas o fato é que o Deus da religião não tem muito espaço dentro da ciência convencional e nem dentro da cosmologia.

O que teria, então, dado origem ao movimento de expansão primordial do big bang? O que veio antes disso?

Hoje em dia, devido aos avanços principalmente da física quântica, temos uma situação incomum. Todos temos uma idéia elementar do que vem a ser o vazio. É, digamos, uma caixa de onde se tirou tudo o que havia dentro e agora não há mais nada. Este é o vazio clássico do mundo cotidiano. Só que o mundo quântico mudou totalmente a maneira de perceber isso. Nele, esse vazio é cheio de potencialidades que podem se realizar. Podemos, assim, substituir o nada por esse vazio quântico, que é instável - os físicos descobriram que ele não pode permanecer como vazio ao longo do tempo. Ele sempre se transforma em alguma coisa real. Passa a existir. Você veja que os cientistas estão lidando com áreas tradicionalmente ocupadas pela metafísica e pela religião. Mas é assim que funciona. Nos séculos 16 e 17, os físicos tiraram dos metafísicos uma série de questões que eles julgavam típicas de sua área de atuação. A religião, até onde posso perceber, escondeu-se atrás do big bang e está ligada à fantástica publicidade que esse fenômeno sofreu a partir dos anos 60. Hoje, através dessa noção quântica do vazio, a grande lição que estamos tirando é a seguinte: não havia escolha - não pode não haver alguma coisa. Se você identifica Deus como aquele que cria, o fato é que não há lugar para Ele nessa nova cosmologia.

O mundo árabe foi muito importante para o desenvolvimento, por exemplo, da matemática. Em que medida o fundamentalismo religioso naquela parte do mundo prejudica a evolução científica?

Quando a religião toma a estrutura de poder, isso é uma catástrofe não só para ciência, mas para a sociedade como um todo. Essa sociedade deixa de poder explorar seus caminhos de liberdade e fica amarrada a certos preconceitos. O mundo muçulmano tinha um pensamento original maravilhoso, que infelizmente vem sendo impedido. Este, no entanto, é um exemplo extremo. Do outro lado, os Estados Unidos de Bush também criam barreiras semelhantes, como o movimento criacionista.

Fred Melo Paiva

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