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de FLV | Domingo, 13 de Agosto de 2006

O pensamento de Aristóteles continua vivo

A maioria das pessoas pode acreditar que o pensamento científico de Aristóteles caducou e se extinguiu com a Revolução Científica dos séculos 17 e 18. Quero argumentar que, longe disso, embora o filósofo esteja morto há 2300 anos, suas idéias continuam muito vivas e ainda influenciam a maneira como a sociedade leiga e alguns segmentos da comunidade científica do século 21 pensam e falam sobre hereditariedade, genética e evolução.

A teoria de hereditariedade apresentada por Aristóteles foi a mais influente do mundo antigo. Ele corretamente intuiu que tanto o pai quanto a mãe contribuem com material genético para a formação da criança. Entretanto, segundo ele, esta contribuição ocorria por uma mistura de sangues - o sêmen masculino, nada mais sendo que sangue purificado, constituía a fonte da vida e da forma, enquanto o sangue menstrual feminino, menos puro, contribuía com a parte material do embrião.

Hoje, é lógico, nós cientistas sabemos que essas idéias estavam completamente erradas. Afinal, conhecemos tudo sobre as leis de Mendel e a estrutura de DNA dos genes. Então, pode o leitor me explicar por que tantos em nossa sociedade continuam a falar em famílias de “sangue ruim” e em aristocratas de “sangue azul”? E por que gira em torno de quem tem “sangue negro” a maioria dos debates recentes da imprensa brasileira sobre as cotas e o Estatuto da Igualdade Racial? Mesmo nesses tempos pós-mendelianos e pós-genômicos as idéias do velho Aristóteles continuam muito vivas!

A natureza não faz nada em vão

Aristóteles

Aristóteles em cópia romana de escultura em mármore feita por Lísipo (Museu do Louvre).

Um segundo conceito de Aristóteles que perdura e influencia as idéias atuais sobre genética e evolução é o de que “a natureza não faz nada em vão”. Para entender a gênese dessa idéia, precisamos recapitular a noção aristotélica das quatro causas. De acordo com o filósofo, sempre que pensamos no mundo em termos de causas, ou seja, quando perguntamos por que isto ou aquilo ocorreu, há sempre quatro parâmetros: a causa material, a causa eficiente, a causa formal e a causa final.

Para ficar mais claro, imaginemos a construção de uma casa. A causa material da casa são seus elementos estruturais: as vigas, os tijolos, o cimento etc. A causa eficiente (ou motora) é formada pelo engenheiro e pelos operários que vão de fato erguê-la. A causa formal é a planta da casa, que mostra como ela será construída, a sua organização. E temos a causa final, que é a razão pela qual a casa foi construída, que pode ser para servir de morada, para proteger contra as intempéries ou contra ladrões.

Aristóteles ampliou sua teoria sobre as quatro causas para explicar todos os fenômenos naturais e a própria natureza. Para ele, a causa final, ou seja, a explicação teleológica (de telos = fim, objetivo) era a mais importante delas, pois tudo no mundo acontece para preencher uma necessidade. Segue que a natureza é perfeita, já que tudo nela tem uma causa final, uma razão, uma explicação. Daí a idéia aristotélica de que “a natureza não faz nada em vão”. Observe o leitor que essa lente teleológica faz a conexão da causalidade com a inteligibilidade da natureza.

O paradigma teleológico ganha força pela nossa observação de que a natureza parece ter alguma ordem e porque os organismos aparentam ser extremamente bem adaptados aos seus ambientes. Entretanto, as explicações teleológicas esbarram em problemas óbvios e graves. Basta lembrar que causas finais não são propriedades intrínsecas da natureza, mas sim projeções da mente humana tentando fazer sentido da experiência empírica.

A crença teleológica ingênua pode nos levar a alguns extremos ridículos. Por exemplo, a casca da melancia não possui listras para indicar o local do corte e permitir a sua divisão na refeição da família e nem as pulgas são escuras para facilitar sua detecção, como foi sugerido pelo naturalista Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814). Este tipo de explicação simplista foi parodiado de maneira brilhante no romance Cândido, de Voltaire (1694-1778). Um dos personagens, Professor Pangloss, tutor de Cândido, era adepto de explicações teleológicas e dizia, por exemplo, que a causa final da existência do nariz era servir de apoio aos óculos. Ridículo, não?

Entretanto, a noção igualmente ridícula de que o objetivo final dos organismos vivos é “sobreviver e transmitir seus genes” não nos parece tão risível simplesmente porque esta idéia aristotélica continua amplamente ventilada em rodas biológicas atuais. E o viés epistemológico de que “a natureza não faz nada em vão” ainda hoje leva a ciência a uma busca desesperada para causas finais em tudo, do DNA não-codificador à morfologia dos seres vivos, com a recorrente invenção de explicações teleológicas fantasiosas e barrocas. Vem daí, também, uma intolerância quase visceral que certos círculos científicos expressam com relação a um importante papel da contingência e da aleatoriedade na natureza.

Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais
11/08/2006

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