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Como funciona o cérebro do adolescente
de FLV | Sexta, 7 de Abril de 2006
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Nesta entrevista ao Vya Estelar, neurocientista Suzana explica por que o adolescente tem o direito de errar e responde Ela se especializou em estudar o cérebro e é autora dos |
Vya Estelar - O que acontece no cérebro
quando entramos na adolescência?
Suzana Herculano - Uma imensa reorganização
que começa com uma fase de produção de matéria-prima,
ou seja, mais conexões entre os neurônios, seguida da eliminação
das conexões que não servem. Essa é a base do aprendizado
intenso que ocorre ao longo de toda a adolescência.
As grandes mudanças específicas
são as seguintes:
- O sistema de recompensa, que nos faz sentir prazer e querer mais do que
é bom, passa por grandes mudanças logo no começo da adolescência
que provavelmente causam os sinais mais característicos da nova fase:
o tédio, o gosto por riscos, a busca de novidades.
- O córtex pré-frontal amadurece durante a adolescência
e passa a permitir o raciocínio abstrato, melhora a memória
e a concentração, e começa a permitir o controle de impulsos
(aquele de contar até dez antes de xingar a mãe…)
- O córtex órbito-frontal somente amadurece no final da adolescência
e possivelmente permite, só então, o raciocínio conseqüente,
ou seja, o comportamento responsável, que leva em consideração
as conseqüências possíveis dos próprios atos antes
da ação. Até então, adolescentes não sabem
pensar sozinhos nas possíveis conseqüências ruins dos seus
atos.
- O circuito social somente amadurece no final da adolescência, quando
permite que o adolescente se torne uma pessoa sociável, empática,
solidária, capaz de se colocar no lugar dos outros e usar esta informação
na hora de agir.
Vya Estelar - Cérebro de garotos
e garotas funcionam de modo diferente nesta fase?
Suzana Herculano - As mudanças
costumam começar primeiro nas meninas. Ou seja, elas começam
a fase de transformação cerebral antes deles, e passam a adolescência
inteira mais ou menos ‘na frente’ deles.
Vya Estelar - De que forma isto se repercute
no cotidiano ou no comportamento dos jovens?
Suzana Herculano - A conseqüência
da diferença no tempo da adolescência entre meninos e meninas
é conhecida: meninas de 14 anos podem ser moças bastante maduras,
enquanto meninos de 14 anos são… ahn… meninos de 14 anos.
Vya Estelar - A partir do funcionamento
do cérebro, que dicas de autoconhecimento a senhora daria para que
garotos e garotas levem esta fase da vida com mais tranqüilidade?
Suzana Herculano - Conhecer e aceitar
seus limites é fundamental, e é um autoconhecimento que a neurociência
hoje traz para o adolescente. É importante saber que precisamos de
estímulos novos; que o cérebro se torna capaz de encontrar esses
estímulos na literatura, no cinema, na música, no esporte, nas
amizades; que usar drogas na adolescência é uma péssima
idéia, porque o sistema sobre o qual elas agem está em uma fase
crítica de sua formação; que somos impulsivos na adolescência
e isso nem sempre é bom; que ainda não somos capazes
de encontrar sozinhos todos os fatores, ou ao menos os mais importantes, a
pesar na hora de tomar decisões, simplesmente porque a parte necessária
do cérebro ainda não está pronta; que, mesmo assim, precisamos
tomar nossas próprias decisões, porque é só assim
que se aprende. Os pais e outros adultos confiáveis são ótimos
consultores nessas horas, porque seu cérebro já aprendeu a enxergar
todas as conseqüências possíveis dos nossos atos; que a
adolescência é uma fase de aprendizado intenso, onde - ainda
bem - o adolescente tem direito a vários erros no caminho.
Vya Estelar - Em quais pontos esse cérebro
em transformação ajuda e prejudica os jovens?
Suzana Herculano - O interesse recém-descoberto
pelo sexo aliado à impulsividade e à incapacidade de antecipar
as conseqüências dos próprios atos é uma das misturas
mais potencialmente explosivas da adolescência, e é tudo fruto
das transformações no cérebro. Mas essas transformações
também trazem coisas ótimas: raciocínio abstrato, raciocínio
lógico aguçado, grande capacidade de concentração
e aprendizado, idealismo, sede de novidades, disposição para
correr riscos, vontade de realização e relacionamentos sociais
cada vez mais bem sintonizados.
Vya Estelar - Uma série de questões
merecem uma breve reposta. Gostaria que a senhora por gentileza as respondesse.
Por que os adolescentes Se trancam no quarto ?
Há uma mistura de desinteresse pelo familiar/procura do novo que faz
com que o adolescente se afaste do ambiente e das pessoas familiares. Uma
maneira de fazer isso é sair de casa; se isso não é uma
alternativa, resta passar o máximo de tempo possível fora de
casa, e o resto do tempo… trancado no quarto, onde ele pode se cercar das
novidades do seu mundo novo.
Se apaixonam loucamente
Sexo - e isso inclui beijos e carícias - é uma das melhores
maneiras de ativar o sistema de recompensa que entra em baixa no começo
da adolescência. Some-se a isso a impulsividade e a falta de discernimento
do ‘circuito social’ do cérebro sobre quem é ou não é
um(a) bom(a) candidato(a) a parceiro(a), e tem-se… paixões e mais
paixões, todas intensas, muitas pouco duradouras.
Gostam de adrenalina - velocidade, rock pesado,
raves, esportes radicais
Mais uma vez, a ‘culpa’ é do sistema de recompensa em baixa, necessitado
de estímulos novos e fortes. Novidades, barulho intenso grave, e o
estresse voluntário de esportes radicais são ótimas maneiras
- embora não exatamente seguras - de dar a estimulação
necessária ao sistema. Há alternativas menos arriscadas: academias,
esportes menos radicais e estímulos intelectuais como música,
cinema e literatura.
Adoram quebrar regras
O cérebro adolescente está aprendendo a tomar decisões,
e isso envolve saber até onde é possível empurrar limites
e ignorar regras. Isso é particularmente importante quando se lembra
que várias regras da infância eram arbitrárias, estipuladas
pelos pais segundo seus valores particulares. O adolescente está descobrindo
seus próprios valores para tomar decisões, então quebrar
regras é uma maneira de saber se aquilo é realmente uma regra
sensata, ou apenas uma arbitrariedade ignorável.
Querem distância dos pais
Além de serem parte do ‘mundo velho’ da infância que perde a
capacidade de ativar o sistema de recompensa, pais geralmente cometem o erro
de querer continuar a tomar todas as decisões pelos filhos adolescentes.
A distância dos pais pode ser apenas um efeito colateral da necessidade
do novo (novos ambientes, novas amizades, novas atividades), combinada ou
não a uma necessidade de espaço para aprender a tomar decisões.
Se esquecem de ligar para casa
Memória ainda em desenvolvimento + festa animadérrima + cérebro
ainda incapaz de pensar que os pais devem estar morrendo de preocupação
em casa: não pode dar em outra, não é? Mas o celular
resolveu esse problema da minha geração: os jovens agora devem
estar permanentemente acessíveis ao celular…
Sentem tédio
Culpa do sistema de recompensa que sofre uma perda da sua capacidade de ativação
logo no comecinho da adolescência. Por conta disso, tudo o que antes
era bom (porque ativava o sistema de recompensa) deixa de ser, e é
preciso encontrar coisas novas para despertar o interesse do adolescente.
O que é ótimo, porque é assim que se larga o mundo da
infância para se descobrir um interesse pelo mundo adulto.
E por que é tão bom ser adolescente?
Por causa das transformações no cérebro, adolescentes
vivem graaaaandes paixões. Eles entendem melhor e mais rápido
do que os pais como usar equipamentos novos, em parte pelo prazer de usar
suas recém-descobertas habilidades de raciocínio lógico
e intelectuais. É uma fase de grandes descobertas literárias,
musicais, políticas e intelectuais de uma maneira geral, quando estantes
e mentes começam a se encher de novas idéias. O fascínio
recém-descoberto pelo abstrato leva o jovem não só a
descobrir filosofias, como também a criar a sua própria. E aqui
os adolescentes levam uma enorme vantagem sobre adultos: livres ainda de grandes
responsabilidades sobre os ombros, eles têm tempo só para curtir
isso tudo. O ajuste aos novos prazeres e a aquisição de controle
sobre os impulsos fazem com que a impaciência da infância vá
dando lugar à habilidade de se esperar pelo que se quer, até
que um dia a expectativa da festa passa, de sofrida, a ser no mínimo
tão curtida quanto a própria festa. Ao mesmo tempo, a empatia
adquirida com o amadurecimento da porção pré-frontal
do cérebro faz o adolescente descobrir uma ’sintonia’ com os amigos
até então inusitada. É o começo da identificação
com o outro, chave de bons relacionamentos e da vida em sociedade de uma forma
geral.
Vya Estelar - O trinômio sexo, drogas
e rock and roll é conhecido há quase quatro décadas.
A senhora lançou um livro agregando o chocolate a este trinômio.
Por quê?
Suzana Herculano - São os símbolos
mais óbvios do prazer. Meu segundo livro ‘Sexo, Drogas, Rock’n'Roll
& Chocolate’ é sobre todo o cérebro e os prazeres da vida
cotidiana. Fica faltando o dinheiro como outro grande ícone do prazer,
mas o tema também está incluído no livro.
Vya Estelar - Por ser um trinômio
tão antigo não têm muitos cinqüentões e quarentões
ligados nessas ondas. O que muda na relação com este trinômio
dos mais maduros em relação aos adolescentes? Ou esses senhores
estariam tendo um comportamento ‘adolescentóide’?
Suzana Herculano - A adolescência
é um período de descoberta de novos prazeres, e o trinômio
sexo, drogas e rock and roll os ilustra bem. Nossa relação com
esses e outros prazeres se torna mais tranqüila e menos impulsiva/compulsiva
à medida que o cérebro amadurece e sai da adolescência.
Mas esses continuam a ser prazeres pelo resto da vida, mais ou menos importantes
para cada indivíduo.
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