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Por uma sociedade pós-melancólica
de FLV | Sexta, 3 de Fevereiro de 2006
ENTREVISTA
Peter Kramer: Psiquiatra
Lluís AmiguetLA VANGUARDIAMADRI
O homem é um anão quando contempla o próprio umbigo e um gigante quando observa as estrelas. Em alguma estatura intermediária encontra-se Peter D. Kramer, um judeu nova-iorquino de 57 anos, modos suaves e fina ironia, que desestrutura o universo mental de seus contemporâneos. Em Ouvindo o Prozac (Penguin Books, 1993; publicado no Brasil pela Editora Record), Kramer descobriu que a droga que convertia os tímidos em reis da festa colocava em evidência o quanto nossa sociedade valoriza muito mais a autoconfiança e a fé do que a dúvida racional - embora a civilização deva muito mais às perguntas que aos dogmas. Professor clínico de Psiquiatria e Comportamento Humano da Brown University, no Estado de Rhode Island, EUA, Kramer escreveu na obra que se tornaria referência sobre antidepressivos:
“A terapia baseada em fármacos é tão arbitrária quanto a psicoterapia. Como qualquer outra avaliação séria da vida emocional humana, a farmacoterapia repousa em tentativas falíveis da compreensão íntima de outra pessoa”.
Considerado o rei dos antidepressivos, o Prozac rendeu US$ 21,1 bilhões ao laboratório Eli Lilly entre seu lançamento, em 1987, e 2001, ano em que a patente do medicamento expirou. Antes da liberação do mercado aos antidepressivos genéricos, o Prozac rendia US$ 2,6 bilhões por ano à companhia farmacêutica americana. Em 2004, o faturamento global foi de US$ 559 milhões. No Brasil, as vendas totalizaram US$ 3,41 milhões em 2005.
SOCIEDADE PÓS-MELANCÓLICA
Agora, em Against Depression (lançado em maio de 2005 e ainda não publicado no País), Kramer enfrenta o que qualifica como o “clichê destrutivo do artista em permanente estado de tristeza” para propor uma sociedade pós-melancólica em que o distanciamento lúcido e generoso possa mais que o ego depressivo: “Luto contra a depressão por um mundo novo”, diz.
Agora, em Against Depression (lançado em maio de 2005 e ainda não publicado no País), Kramer enfrenta o que qualifica como o “clichê destrutivo do artista em permanente estado de tristeza” para propor uma sociedade pós-melancólica em que o distanciamento lúcido e generoso possa mais que o ego depressivo: “Luto contra a depressão por um mundo novo”, diz.
Doutor, dê-nos um breve conselho para sermos menos infelizes.
A felicidade tem a ver com a capacidade de relativizar: a distância que somos capazes de colocar entre o que nos sucede e o que nos afeta. Distância é a palavra. Não se pode controlar o que nos sucede, mas podemos decidir o que nos afeta.
A felicidade tem a ver com a capacidade de relativizar: a distância que somos capazes de colocar entre o que nos sucede e o que nos afeta. Distância é a palavra. Não se pode controlar o que nos sucede, mas podemos decidir o que nos afeta.
É mais fácil falar do que fazer.
Isso se consegue quando se sabe usar a inteligência da humildade para colocar os próprios valores acima das contingências. E, dessa distância crítica, aprende-se a gozar a satisfação intelectual de dominar as emoções e contemplar com lucidez a própria passagem pela vida.
Isso se consegue quando se sabe usar a inteligência da humildade para colocar os próprios valores acima das contingências. E, dessa distância crítica, aprende-se a gozar a satisfação intelectual de dominar as emoções e contemplar com lucidez a própria passagem pela vida.
A religião ajuda?
Eu lhe asseguro que alguns dos pacientes depressivos mais terríveis que tratei tinham fortes convicções morais e religiosas. Naqueles casos, o sofrimento era terrível, pois, além de estarem deprimidos, sentiam-se culpados porque, sendo crentes, tinham obrigação de ser felizes - mas não eram.
Eu lhe asseguro que alguns dos pacientes depressivos mais terríveis que tratei tinham fortes convicções morais e religiosas. Naqueles casos, o sofrimento era terrível, pois, além de estarem deprimidos, sentiam-se culpados porque, sendo crentes, tinham obrigação de ser felizes - mas não eram.
Existem culturas que nos tornam infelizes?
Uma escola psicanalítica alemã considera a depressão como o reverso da utopia. As sociedades muito abertas e livres acreditam que sofreriam menos depressão se fossem mais fechadas e regradas. As sociedades muito rígidas, em compensação, costumam pensar que seriam mais felizes com mais liberdade e menos normas. Durkheim demonstrou que a anomia, a falta de regras, conduz ao suicídio. O que aprendi é que uma sociedade equilibrada entre a exigência do cumprimento da norma e o apoio da comunidade a cada um de seus membros é a menos infeliz. Não pode ser nem muito repressiva nem muito frouxa, e deve cuidar de seus membros e deixá-los, com o tempo, ser livres.
Uma escola psicanalítica alemã considera a depressão como o reverso da utopia. As sociedades muito abertas e livres acreditam que sofreriam menos depressão se fossem mais fechadas e regradas. As sociedades muito rígidas, em compensação, costumam pensar que seriam mais felizes com mais liberdade e menos normas. Durkheim demonstrou que a anomia, a falta de regras, conduz ao suicídio. O que aprendi é que uma sociedade equilibrada entre a exigência do cumprimento da norma e o apoio da comunidade a cada um de seus membros é a menos infeliz. Não pode ser nem muito repressiva nem muito frouxa, e deve cuidar de seus membros e deixá-los, com o tempo, ser livres.
Somos mais felizes quanto mais aceitos pelos demais ou quanto mais livres deles?
Creio que a persistência de valores numa comunidade que apóie todos os seus membros é melhor que o individualismo feroz e a entropia social.
Creio que a persistência de valores numa comunidade que apóie todos os seus membros é melhor que o individualismo feroz e a entropia social.
E o senhor, como tenta ser feliz?
O absurdo deu muito sentido a minha vida. Hoje sei que é preciso contar com o absurdo para encontrar algum sentido em tudo isso.
O absurdo deu muito sentido a minha vida. Hoje sei que é preciso contar com o absurdo para encontrar algum sentido em tudo isso.
Como assim?
Vivemos numa espécie de ruído constante, de tagarelice ridícula para nos impedir de pensar, para nos impedir de olhar o rosto da realidade e aceitá-lo. Não nos deprima. Você se deprimirá se não for capaz de fazer esse exercício. Só quando souber enfrentar o vazio e assumi-lo, poderá viver plenamente.
Existencialismo.
Senso comum. Em algum momento é preciso olhar nosso destino na cara…
Todos sabemos como isso acaba, doutor…
Senso comum. Em algum momento é preciso olhar nosso destino na cara…
Todos sabemos como isso acaba, doutor…
É preciso aprender a olhá-lo e, de novo, nos distanciar: precisamos descobrir que somos apenas um ser humano a mais entre os que são e os que foram - um congênere a mais dos que encararam o vazio. Somente a contemplação do vazio preenche a contemplação da vida. Se você não esteve ali, não estará aqui.
O que sugere?
Levo a vida toda passeando entre túmulos. Quando era jovem, passeava pelos cemitérios e me censurava pelo pouco que tinha conseguido em minha idade. E tinha 20 anos!
O senhor acabou sendo psiquiatra.
A psiquiatria é minha terapia ocupacional. Na verdade, eu sofro mesmo é como escritor.
Levo a vida toda passeando entre túmulos. Quando era jovem, passeava pelos cemitérios e me censurava pelo pouco que tinha conseguido em minha idade. E tinha 20 anos!
O senhor acabou sendo psiquiatra.
A psiquiatria é minha terapia ocupacional. Na verdade, eu sofro mesmo é como escritor.
Por que escreve?
Me ajuda a colocar essa distância de que falamos. O escritor, embora ache que antecipa, apenas reescreve. Quando alguém se pergunta se é feliz, só será capaz de descobrir que foi feliz. Julgue sua própria vida e verá que o que lhe pareceu sofrimento amoroso quando seu primeiro amor o deixou prostrado, foi, de fato, pura felicidade. Sempre se descobre tarde demais. Aí você pode obter aquela satisfação intelectual de que falamos. A contemplação do vivido, se for lúcida, objetiva, distante e generosa, depara-se com momentos de genuína felicidade. Só se é feliz na recordação.
Me ajuda a colocar essa distância de que falamos. O escritor, embora ache que antecipa, apenas reescreve. Quando alguém se pergunta se é feliz, só será capaz de descobrir que foi feliz. Julgue sua própria vida e verá que o que lhe pareceu sofrimento amoroso quando seu primeiro amor o deixou prostrado, foi, de fato, pura felicidade. Sempre se descobre tarde demais. Aí você pode obter aquela satisfação intelectual de que falamos. A contemplação do vivido, se for lúcida, objetiva, distante e generosa, depara-se com momentos de genuína felicidade. Só se é feliz na recordação.
O senhor foi?
Fiz psicanálise durante anos.
Fiz psicanálise durante anos.
E a que conclusão chegou?
Não sou homem de grandes conclusões. O que me surpreendeu no Prozac é que reafirmava a autoconfiança e isso me levou a tentar averiguar por que nossa sociedade valoriza muito mais a autoconfiança e a fé do que a dúvida racional. Hoje a psicanálise ficou sem base teórica. Antes a gente acreditava em Freud, em Édipo e na inveja do pênis. Hoje é um saber difuso.
Não sou homem de grandes conclusões. O que me surpreendeu no Prozac é que reafirmava a autoconfiança e isso me levou a tentar averiguar por que nossa sociedade valoriza muito mais a autoconfiança e a fé do que a dúvida racional. Hoje a psicanálise ficou sem base teórica. Antes a gente acreditava em Freud, em Édipo e na inveja do pênis. Hoje é um saber difuso.
Serviu para o senhor?
Me ajudou a colocar distância entre meu juízo e minha existência. Uma pessoa inteligente soube me escutar e aprendi a confiar nela para poder confiar em mim.
Me ajudou a colocar distância entre meu juízo e minha existência. Uma pessoa inteligente soube me escutar e aprendi a confiar nela para poder confiar em mim.
Não tinha medo de lhe revelar segredos terríveis sobre suas debilidades?
Por isso é preciso fazer psicanálise quando se é jovem, para não ter tantos pecados para revelar. Não sei se agora repetiria.
Por isso é preciso fazer psicanálise quando se é jovem, para não ter tantos pecados para revelar. Não sei se agora repetiria.
Louvo o seu senso de humor.
É terapêutico, acredite. O distanciamento irônico ajuda a olhar além do próprio umbigo e talvez com sua ajuda você possa ver também os demais: “Você é tão feliz quanto seu filho menos desgraçado.” Aí tem outra pista enorme: alcançará seu bem o que conseguir fazê-lo aos demais.
Está anotado.
É terapêutico, acredite. O distanciamento irônico ajuda a olhar além do próprio umbigo e talvez com sua ajuda você possa ver também os demais: “Você é tão feliz quanto seu filho menos desgraçado.” Aí tem outra pista enorme: alcançará seu bem o que conseguir fazê-lo aos demais.
Está anotado.
É bom se apressar; o final está sempre na virada da esquina. E você nunca sabe de qual esquina. Meus pais fugiram de Hitler com a roupa do corpo - quando tudo parecia tão seguro e próspero. Talvez por isso tentei investir em valores que durem mais que meu ego.
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Um comentário para “ Por uma sociedade pós-melancólica ”
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Quarta, 19 de Abril de 2006 at 7:26:00 PM
olá, eu sou José Amiltom (21), moro em Itararé e tenho síndrome de pãnico e fobia social. Um problema de melancolia tambem… se bem que sou menos melancólico do que extrovertido.
Por infelicidade a sociedade e os pais não compreendem este aspecto.
Sofro muito com este problema, ´pois não tenho o diretio de fazer o que todas as pessoas fazem naturalmente como ir a padaria buscar pão.
Isto é dificil de se dizer quando não se conhece bem a origem do problema. E-MAIL: naug_jr@hotmail.com