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Mulher

de FLV | Terça, 3 de Janeiro de 2006

Minhas orações de hoje, feitas no templo das estrelas, me deram como prêmio um átimo integral de eternidade em que, vendo a soberana sorrir enquanto fitava a esfera do tempo, tive intuitivamente certeza de que está nascendo, agora, um milagroso ano-mulher.

Sim, será a deusa das galáxias quem cuidará, com o carinho que sempre dedicou a suas filhas, do próximo bailado de Gaia em torno do Falos solar, dando meneios graciosos de fêmea no cio a cada movimento da história humana que habita os poros do planeta, sugando a seiva de todos os porquês da vida para fecundar, através de ventres e olhos, belezas que, germinando, rejuvenesçam a Terra e alimentem seus dias com a energia - palpável, de tão intensa – do próprio leite materno formado para lhes assegurar continuidade.

As indagações que cercam cada sonho de mudança, micro-antíteses dos espasmos da rainha, que do seu trono segue, parturiente do infinito, doando a si mesma para fazer de nós, rotos vassalos, novamente guerreiros de corcéis ajaezados, com armaduras, escudos e espadas luzidias prontas a defender feudos e o reino, nos cercam no caminho, transmutadas, por feitiços de ganância e ignomínia, em falsos moinhos, aparentemente inofensivos mas capazes de, à medida que os espaços se fecham sobre o instante, suscitarem a paralisia da grande dúvida e de, ferindo a fé de quase morte, brindarem o que é com a insipidez masculina de reduzir tudo a uma paupérrima dedução tipo pau-pau, pedra-pedra, incompetente para ver a interioridade do primeiro como parte de uma floresta riquíssima e a magnificência da segunda como um rochedo primevo, conhecedor de geografias mais antigas do que a própria evolução da qual surgiram nossos antepassados primatas.

Mas em um Feliz Ano-Mulher, todos estes riscos de um Tanatos, por assim dizer, extremamente chauvinista, obtuso demais para diferenciar talheres no ágape dos gourmets, ficam reduzidos a meras probabilidades de máximo esforço heurístico, com chances quase nulas de ocorrerem, até porque o aconchego de um domínio inteiramente dela, a rainha, esclarecida governante da gestação de um mundo novo, abandona a sofisticação pelo bem estar, deixando a finesse e o glamour por conta do charme pessoal de cada um, o que significa, simplificando a questão, um encontro entre o melhor existente em todas as pessoas, sem, regras maiores do que a limpidez no olhar e a sinceridade imanente - e facilmente registrável – de um aperto caloroso de mãos.

Cumpre lembrar que todos os movimentos, mesmo apresentando, em seu desenrolar, a ação conjunta de forças ativas, conciliadoras e passivas, em um ano assim mulher terão regência da suprema energia feminina, capaz de impor seu ritmo e perfume a deuses e deusas de mitologias diversas e emprestar sutileza e graciosidade mesmo a rasgos de rompante, como os característicos de Ogum ou de Iansã dos Relâmpagos, expressões de decisões súbitas do Absoluto sobre a Natureza e os caminhos da percepção humana.

Isso quer dizer que todas as reformulações e mudanças, evidentemente imprescindíveis à formulação do novo, serão mais atos de defesa da Grande Mãe, ciosa em proteger filhas e filhos, do que a imposição de princípios criadores implodindo o antigo para dar lugar ao novo, como seria comum a instantes traduzidos unilateralmente por um olhar de macho, por mais abrangente e amoroso que este fosse.

Sorte nossa, essa de ter chances como esta, e viver numa época onde, após a antítese, surge uma tese trazendo em si possibilidades de útero, beleza e cio de matriarca enquanto jovem, irradiando-se prenhe de instinto / desejo e formatando, numa prece embriagante de lábios rubros, os embriões que parirão pelo mundo uma outra paz, capaz de abraçar a todos.

Que seja assim, pois, este ano-mulher para todos no planeta – uma órbita inteira em torno do Sol, com o fascínio feminino do élan vital de Gaia comandando diretamente a sede de consciência e a fome de encontro da humanidade e seus vesgos particularismos com a lucidez inenarrável do todo.

E que a luz, refletida dela, brilhe nos incontáveis prismas do cristal de poder do anel da soberana, consagrando homens e mulheres, conforme os predicados que ostentem, cavaleiros, sacerdotes, vestais, damas e arautos de seu reino mágico, perenizado a cada dia pelo espanto de descobrir, na eliminação do supérfluo e do imaginário, outros nomes da felicidade, sussurrados diretamente pelo divino em nossos corações.

hugoleal@hugoleal.net

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