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Burro, porém feliz

de FLV | Terça, 20 de Dezembro de 2005

© Hugo Leal

Poeta e escritor

E não é que estamos ainda sobrevivendo, apesar de todo o pedantismo e insanidade da chamada espécie humana, da qual fazemos parte, não sei se feliz ou infelizmente?
O certo é que, cada vez mais ridículos ante a força inconteste dos fatos, lá vamos nós, pretensos dominadores do planeta, cegos – e surdos – a um retorno matematicamente inevitável para a somatória de absurdos que cometemos contra o ecossistema, impedindo que nos garanta um habitat viável, e até contra nós mesmos, incapazes que somos de, em nossa estupidez inenarrável, de nos percebermos como um todo e centrarmos, numa egolatria impossibilitada de se despir de seu delírio, todas as ações, objetivando sempre só a nós próprios, como se pudéssemos – e fizesse algum sentido – “sobrar” por aqui como entes únicos, independente do conjunto que, por definição, não prescinde de suas partes para ser o que é, e onde cada partícula tem sua continuidade diretamente vinculada, na mais condescendente das alternativas, à existência harmoniosa com pelo menos dois terços do todo que a circunda.

Para a idiotia humana, nem o céu é o limite – apenas a inexorável lógica da causa e efeito, presente em toda e qualquer manifestação cosmogônica, pode deter um dia nossa imbecilidade simultaneamente aguda e crônica, esta megalomania de anões bêbados, a bufonice de chamar para a briga, como adversários, gigantescos profissionais do ringue, capazes de, com um simples peteleco, nos desconjuntar os ossos, enquanto a platéia intergaláctica gargalha incontrolavelmente, pensando ser tudo um pastelão bem ensaiado e não o que realmente é, a trágica arrogância de uma alternativa de expressão biológica que se auto-outorgou o título de “Preferida do Absoluto” e, na ânsia de cumprir seu propósito inato de evoluir pela abrangência do conhecimento a começar de si mesmo, mascarou a angústia promulgada por suas angústias e medos através da criação de uma ilusão de poder sem a menor justificativa racional coerente.

Afinal, tudo no âmbito das generalidades matemáticas aponta para uma pequenez que, se confrontada com a pretensão de grandeza do homem, torna-se irmã gêmea da mediocridade, fazendo quase compassiva a visão da inteligência sobre seus arroubos ditos de glória e suas paupérrimas ilusões de poderio.

Porque as escalas universais não mentem, e o que elas mostram são proporções assustadoras – um firmamento onde o Sol, nosso parâmetro de irradiação de vida, mediria apenas 1 milímetro contra os 33 metros de uma estrela como a principal da constelação de Capela, e o sistema solar inteiro seria um simples grão de areia perdido nos 64 milhões de metros quadrados das áreas somadas das 3 Américas.

Sim, porque Gea, a Terra, ou – se preferirem - Gaia, ventre da alegria oriunda do espanto do lado fêmea de Deus, emanando o amor que é como Mãe e Pai de tudo que contém, pertence a outra dimensão, onde as relações tridimensionais inerentes à medida e ao volume podem ser confrontadas em paradoxos a cada instante, já que, sendo mais do que nos cabe ser fisicamente, obedecem a compromissos com o abstrato e não com o concreto, podendo, como objetos maiores, estar contidos em menores, e se mostrarem absolutamente iguais, mesmo que inteiramente diferentes.

Senhores de um quintal que não conhecemos porque é um ponto no infinito, e no infinito tudo é um ponto, saber que somos quase que simples bactérias em face do todo, tanto existente como objetivado, é o mínimo exigido para que cheguemos, algum dia, a ocupar uma função real na imensidão da proposta do Criador, e mereçamos dele a atenção que julgamos já ser nossa, apesar de nossa notória e axiomática falta de mérito.

Que o caminho continue, pois, e que eu esteja nele, conscientemente perdoado por mim mesmo das tolices resultantes das minhas viseiras, fronteiras e deslumbramentos, sabedor de que o imperdoável, agora, é julgar meus pares na roda da vida, depois de ter cuspido tantas vezes nas cartas que o destino, conspirando a meu favor, colocou diante de meus momentos de vestir futuros.

Assim, que a brisa leve da paz sopre sobre todos os espíritos, e o cântico dos anjos, nas proximidades de mais este Natal, faça autêntico e legítimo tudo que homens e mulheres dedicarem uns aos outros nos seus votos, mesmo que emitidos pela secretária eletrônica da alma, nas casas em que os corações dos moradores ainda estiverem na lista dos desaparecidos

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