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A morte da mãe do Bambi
de FLV | Quinta, 15 de Dezembro de 2005
Lendo o texto do Verríssimo, me recordei dos anos 70 e poucos quando em um cinema chamado São José em São Roque com minhas tias, assisti ao referido desenho e confesso que a sensação foi a mesma. Ou seja, estou ficando obsoleto… haha.
Da série “Você sabe que está ficando obsoleto quando…”
Num recente encontro de escritores na França, um americano de quem eu nunca tinha ouvido falar, mas é cult de muitos franceses, Jerome Charyn, revelou que a grande tragédia da vida dele, o que marcou sua personalidade e provavelmente sua literatura para sempre, foi a morte da mãe do Bambi. Muitos riram mas eu entendi imediatamente o que ele queria dizer. Temos mais ou menos a mesma idade. Somos da geração que nunca se recuperou da morte da mãe do Bambi. Todos os nossos parâmetros de maldade, injustiça e perda vêm desta experiência. A descoberta de que mãe também morre é um trauma comum a todas as espécies, desde o primeiro bicho, mas só quem assistiu à morte da mãe do Bambi no cinema com uma idade impressionável teve uma evidência gráfica, arrasadora, deste fato. Nossa geração foi feliz até os 5 ou 6 anos, depois nunca mais foi a mesma. Culpa do Walt Disney, que ainda nos traria a imagem do elefante Dumbo sendo embalado pela tromba da sua mãe presa numa jaula de circo, para acabar de vez com todas as nossas ilusões sobre a vida.
Igualmente melancólico é você mencionar a morte da mãe do Bambi como precursora de todas as nossas desilusões sentimentais, artísticas e políticas e ouvir a resposta:
- Mãe de quem?
E concluir que está chegando naquela idade em que há o risco de olhar em volta e não ver mais nenhum contemporâneo. No outro dia, imaginando uma cena parecida numa das CPIs, lembrei aquela piada do bêbado mexicano que entra numa boate e ouve o público gritando para o cantor sobre o palco: “Hipócrita! Hipócrita!” E começa a gritar “Imbécil! Hijo de puta!” A única reação à piada foi um sorriso de incompreensão, seguido de um diálogo doloroso.
- Por que o bêbado tem de ser mexicano?
- Por nada. Ele pode ser de outra nacionalidade. Mas como se trata de um bolero…
- Bolero?
E vá você explicar que uma vez houve um bolero famoso chamado Hipócrita a quem também nunca ouviu falar no Bambi.
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